Mais de 130 médicos do Hospital Materno Infantil Santa Catarina (HMISC), em Criciúma, ainda não receberam os honorários referentes aos meses de abril e maio. O período corresponde aos últimos dois meses em que a unidade era administrada pelo Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (Ideas). Mesmo sem os pagamentos, os profissionais afirmam que mantiveram os plantões e garantiram o atendimento à população. O impasse foi levado pelo Sindicato dos Médicos da Região Sul Catarinense (Simersul) à Câmara de Vereadores nesta terça-feira (1º).
A participação do sindicato na Tribuna Livre foi solicitada pelo vereador Luiz Carlos Custódio Fontana (PL). A presidente do Simersul, Cristiane Lopes Coral, esteve acompanhada das médicas Ana Luiza Córdova e Suzana Kniphoff, que relataram as dificuldades enfrentadas pelo corpo clínico.
Segundo Cristiane, o sindicato procurou o Ideas, a Secretaria de Estado da Saúde e a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Bernardo do Campo (SCSBC), que assumiu a gestão do hospital no início de junho. As negociações, porém, não resultaram no pagamento dos valores.
“Desde então, nós nos mobilizamos, como Simersul, para tentar algumas negociações com o Ideas, que fazia a gestão naquela época, com a Secretaria de Estado da Saúde e também com a nova organização social. As negociações não foram resolutivas”, explicou.
Diante da falta de uma solução administrativa, o Simersul decidiu recorrer à Justiça. As medidas judiciais foram direcionadas ao antigo administrador do hospital e à empresa terceirizada responsável pelo repasse dos honorários.
“Hoje, já entramos com ações contra o Ideas e contra a empresa terceirizada que faz o pagamento aos médicos”, informou Cristiane.
Médicos mantiveram plantões mesmo sem pagamento
A pediatra e coordenadora do Pronto-Socorro Pediátrico do HMISC, Suzana Kniphoff, afirmou que os médicos continuaram trabalhando mesmo durante a paralisação de parte da equipe de enfermagem. Segundo ela, a escala médica foi preservada para que a assistência às crianças não fosse interrompida.
Para cumprir os plantões, Suzana precisou reorganizar a própria rotina e assumir despesas para garantir os cuidados com os filhos enquanto permanecia no hospital.
“Durante todo esse período, eu saí da minha casa, deixei os meus filhos e paguei funcionários para cuidar deles. Eu fiz todo um ajuste na minha vida para continuar trabalhando”, relatou.
A falta de pagamento já provocou a redução da carga horária de parte dos médicos e a saída de profissionais experientes. A pediatra alertou que o problema não atinge apenas o corpo clínico, mas também compromete a qualidade do atendimento oferecido à população.
“Infelizmente, com todo esse processo, perdemos muitos profissionais que eram extremamente qualificados, justamente por estarmos sempre vulneráveis a isso. Nós perdemos muito, mas a população também perde, porque bons profissionais vão realmente sair do hospital por conta disso”, afirmou.
Obstetra trabalhou 330 horas em dois meses
A ginecologista e obstetra Ana Luiza Córdova, que atua no HMISC desde 2020, apresentou números que dimensionam o trabalho realizado durante os dois meses sem pagamento. Conforme a médica, foram 330 horas de serviço e mais de 300 partos atendidos entre abril e maio.
“Eu fiquei dias, horas e noites naquele hospital. Eu salvei vidas e fiz inúmeros partos. E quero saber quem vai pagar meu salário”, reivindicou.
Além do impacto financeiro, Ana Luiza relatou um sentimento de desvalorização profissional diante da ausência de respostas sobre os valores devidos.
“É muito difícil para mim falar sobre esse assunto, porque eu me sinto extremamente negligenciada e humilhada. Uma vez, a minha mãe me disse: ‘Estuda, filha. Estuda porque o conhecimento ninguém nunca vai tirar de você’. E eu sinto que hoje o meu conhecimento está sendo tirado de mim”, lamentou.
Sindicato pede apoio do Legislativo
Desde junho, o Simersul realiza assembleias com o corpo clínico e busca alternativas para assegurar o pagamento dos profissionais. Cristiane ressaltou que, apesar das dificuldades e da insegurança financeira, muitos médicos não interromperam os atendimentos.
“Hoje estamos aqui como médicos que têm empatia e não pararam de trabalhar”, declarou.
Durante a sessão, vereadores manifestaram solidariedade aos profissionais e se comprometeram a buscar esclarecimentos e possíveis caminhos para resolver o impasse. Após a manifestação do presidente da Câmara, Neto Uggioni (PSDB), o sindicato informou que pretende contar com o apoio do Legislativo na cobrança por respostas e pelo pagamento dos mais de 130 médicos.